“Energia da Nossa Vila Isabel”

•16/08/2010 • Deixe um comentário



No início as cadeiras vazias criavam a expectativa. Na mesa, os instrumentos, garrafas de cerveja, copos pela metade e uma estatueta de São Jorge no centro. Primeiro surgiu uma menina mulata de aproximados 10 anos de idade, vestindo um casaco rosa e um tamborim na mão. Os outros foram chegando aos poucos e já tomando posse de seus respectivos lugares e instrumentos.

Bem próximo do grupo, havia uma senhora de vestido roxo, cabelos soltos e álcool na mente se remexendo aos primeiros sinais das batidas musicais. Do outro lado um homem alto negro retinto desfilando com sua loira reformada cirurgicamente de meia idade. Na frente deles, uma senhora de calças azul piscina e óculos escuros (apesar do breu das 8 da noite). Mais pro fundo do boteco um senhor de calças brancas, camisa estampada e um colete cinza de lã, fazendo jus ao frio da noite, riscava o salão com seus passos desequilibrados de mestre sala.

Próximo da entrada, uma senhora de calças apertadas casaco de malha e boné sambava, admirável e discretamente num canto. Próximo dela outras senhoras se esbaldavam de sambar entre as mesas e cadeiras. Uma moça filmava e fotografava a apresentação animada do grupo e a alegria dos fregueses. A mulher de roxo gritou aos 4 ventos entre uma música e outra: “Isso aqui é Vila Isabeeel!!”  enquanto aproximava os quadris agitados pra perto do rapaz do pandeiro que imediatamente se benzeu com cara de espanto.

O grupo seguia brilhante emanando uma alegria que foi representada fielmente pelo percussionista de tranças no cabelo. Seus dentes compridos e brancos cintilavam o sorriso de orelha a orelha enquanto ele levantava o pó do chão com uma batucada compassadamente enérgica. Entre um ritmo e outro ele ensinava a menina do casaco rosa como acompanhar a batida da vez no tamborim. Os integrantes se revezavam entre sorrisos, suor, cerveja e instrumentos.

Os fregueses cativos se cumprimentavam a cada novo encontro. Os pais sacudiam as crianças. Um garçom insinuava um passinho ao passar com a bandeja. Os outros acompanhavam o ritmo do samba dando batidinhas no pescoço das garrafas. Já mais pro fim do que pro início, surgiu uma figura marcante. Ele usava um casaco antigo, calças largas e um tênis velho, era alto, negro, com um aspecto maltratado pela vida, barba desgrenhada e uma touca preta. Tinha anéis e pulseiras prateadas robustas. De um momento pro outro, pra minha surpresa, o grupo lhe oferece o microfone e pede três músicas.

Tirando olhares espantados de alguns do boteco, ele puxa “Amor amigo” e surpreende. Terminada sua participação, o grupo lança um samba entoando orixás, pondo fogo na “platéia” já agitada, que se aproxima em torno da mesa, agitando o corpo, sentindo a batida de candomblé vibrar dentro de si. Instante tão marcante quanto o momento que tocaram “Feitiço da Vila” sem que qualquer um deles entoasse a letra. Foi quase como sentir Noel “vagando na noite e vivendo na terra” pra cantar sua canção mais uma vez.

Interessante descobrir a proposta desse estabelecimento que atende como padaria, restaurante e veja só, boteco no fim do dia (com direito a samba ao vivo aos domingos). Eu que me perguntava porque essa região tão conhecida pela boemia, fica pra trás quando o assunto são as animadas e jovens noitadas, agora sinto minha dúvida sanada com um trecho da canção de Noel: “São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila… Isabel dá samba.”


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Hoje é domingo

•25/07/2010 • 2 Comentários

(Acordei com esse trecho na cabeça – 1:49 em diante)

Hoje é domingo, pé de cachimbo, o cachimbo é de ouro e eu resolvi escrever. A manhã tá linda e só nesse momento percebi há quanto tempo eu não vejo o sol das 8, 9 horas.. Nem das 10 por assim dizer. Normalmente acordava às 6 e qualquer coisa e saía com o saudável atraso nosso (talvez só meu) de cada dia. Não olhava pros lados direito. Estava atrasada. Na maioria das vezes só voltava a ver a luz do dia no velho e conhecido horário de almoço corrido. E depois… só o rotineiro breu das 6 horas em diante.

Não. Eu não acordei cedo. Eu não dormi, na verdade. Coisas do meu sono descontroladamente perdido no tempo e espaço. O fato é que sinto os sinais de cansaço das 24 horas acordada batendo na porta, mas me recuso a dormir e perder mais uma manhã da minha vida. Queria eu não precisar dormir nunca e poder ver os primeiros raios de sol de todos os dias. Revigoram a mente e o espírito como poucas coisas conseguem.

As manhãs tem cheiro, temperatura… que são só delas… Quer saber?… Vou à praia. Agora.  Até mais ver.  😉


Mãe nasce em pé de planta?

•11/04/2010 • 3 Comentários

Foi no início da manhã. Mas eu ainda sinto o cheiro dela em mim. Cheiro de criança. Eu nunca fui uma pessoa muito carinhosa. Meus afagos são sem jeito, minha abordagem é timidamente idiota. Até pra uma criança de três, quatro, seis anos. Eu fico meio dura, claramente desconfortável. Não tenho aquela admiração com cada gesto do ninfetinho. Não consigo achar tudo fofinho. Não sou tomada de ternura quando uma delas se aproxima. Me sinto meio mal por isso. Como se estivesse errada. Fria demais. Eu pensei que com o nascimento do meu sobrinho eu aprenderia a ser mais amorosa. Mas meu amor se limitou a ele. E quanto amor! Não entendo até hoje de onde vem. Mas o fato é que parei por aí.

Agora guardo minhas expectativas pra quando a maternidade chegar. Quem sabe então? Uma das expectativas é viver não só a maternindade biologicamente falando, mas experimentá-la na sua essência e prática adotando uma criança. Acredito que adotar pode ser uma experiência tão única e enriquecedora, quanto ser mãe pelo modo tradicional.

Mas aí… eu estava lá. As crianças tão distraídas em suas próprias brincadeiras mas tão subconscientes de sua condição. E como surge um filho? Não é natural escolher um. Não é justo. Com ninguém. Idade, sexo, temperamento, aparência? É assim que nasce o amor de mãe?  Como ele nasce então? Você sequer aceita com facilidade uma criança de outra pessoa. E aquela remelenta, cabelo desgrenhado, pernas finas e barrigão? E se todas forem assim? É fácil parar na rua pra admirar a menininha nórdica que passou sorrindo. Mas e o menino triste do nariz escorrendo? É criança tanto quanto. E ainda precisa de mais afagos e sorrisos do que a nórdica. Você dá também?

Filhos vem de cegonhas e as mães de onde vem?

Eu que quando criança adoecia quando meus pais passavam algum tempo longe, sequer cheguei perto da decepção que é dar adeus  pra tanta gente diferente que vai embora e nunca mais volta. Eu ainda sinto o cheiro dela. Talvez sinta ainda por um tempo.

– Agora me dá um beijo!

– Tia, você vai embora?

– Sim…

Todo dia é dia de mãe.

•11/04/2010 • 1 Comentário

Pra você =)

E se um dia toda a sorte me faltasse e Deus me abandonasse, ainda assim eu creria em Sua existência. Só um ser com as Suas atribuiçoes seria capaz de criar outro ser tão divino quanto ele próprio. A minha mãe. E mais muitas outras por aí. É o amor mais puro, o que mais se doa. Em troca de nada. Simplesmente porque ver o bem do filho é sentir o mesmo bem.

Quem inventou o amor? Eu.

•19/02/2010 • Deixe um comentário

É preciso amar como se não se não fosse preciso retribuição.

Porque se você parar pra pensar, na verdade não há.

Essa noite eu tive um sonho: "A primavera" de monet


– E do que adianta D. Consciência?! Conhecer o amor da minha vida e não poder sair por aí gritando isso aos quatro ventos! É tão injusto!

Dizia Lisa.

– Lisa, vocês nunca estiveram juntos. Ele se entitula comprometido e nunca demonstrou o mesmo por você. É bem verdade que foi dele que inegavelmente partiu a iniciativa e a demonstração de interesse, diria até algum afeto. Mas não há nada de concreto. Realmente NADA.

– D. Consciência, isso não tem a ver com fatos e sim com o sobrenatural que nos cerca. Ele brilha quando me olha. A luz ofuscante vem refletida diretamente dos olhos semi cerrados e do sorriso discreto que se faz sol aos meus olhos. Sorriso maroto, de caninos afiados e lábios finos, tímidos, lisos, visivelmente macios e perfeitamente modelados. O calor que emana dele me atingindo em cheio é cegamente absorvido por mim. Um calor nunca d’antes sentido por esta que vos fala e por isso tão fervorosamente defendido. Sotaque cheio de erres melosamente vibrantes e últimas silabas pouco pronunciadas, a voz timbra feito veludo rouco, soa baixinha e descontraída como um assobio.

Se eu fosse tocada pela menor das retribuições, minhas pálpebras encharcariam e meus olhos se esvairiam em dilúvio. Me roubou  a disposição pra dormir, pra comer. Velar seu sono era mais apaziguador que qualquer livro de amor pro mais carente coração. Embalado previamente em meus pensamentos por canções adivinhas que já prediziam minha súbita paixão. O cheiro inebria, embriaga, arrebata, extasia, me eleva, me droga, me atrai viciosamente como a gravidade faz com seus desafiantes na Terra. Sem desejar nem por um segundo estar em outro lugar que não ali dentro de seu abraço fotográfico. Sua mínima reação a mim entontece, me tirando do eixo. Dá vertigem. Eu perco a voz. O coração pára chocado deixando a vida se esvair de mim, desnorteando minha consciência e volta segundos depois mais acelerado que nunca me trazendo à realidade inacreditável da sua existência.

É um amor desses de filme. Paixão intensa e pura de interesses demais pra receber denominação de nível menor que o próprio amor em si. Unilateral e único como o mais verdadeiro dos amores. A própria retribuição em si se torna desnecessária, visto que o que sinto já existe, independente disso. Sequer sinto vergonha de anunciá-lo, porque não é fraqueza, não é erro. Não me faz sofrer. No máximo se tornará lamentavelmente fugaz, caso meu amor próprio seja ameaçado. Amor cheio de percalços e vieses que espero no fim das contas nos mostrar o quanto fomos feitos pra vencê-los e acabarmos começando o que está claramente destinado a nós…

– Fosse eu acreditar com todas as minhas forças nisso, Lisa. É angustiante ser seu lado angustiado pela incerteza que a certeza da pouca probabilidade produz. Sou só a menor das vozes dentro de todo o seu imperativo, incontrolável, inesperado e imensurável amor. Mas é meu papel não deixar você voar tão alto, presa em balões de cordões tão frágeis. Apesar disso, não posso e não devo cortar seus cordões. Ninguém pode. O amor é seu e quem decide se é hora de senti-lo ou não é você. E enquanto você for feliz eu continuarei sendo só uma voz fraca no fundo da sua mente. Mas lembre-se: sou eu que mais torço pra que eu tenha motivos pra um dia me calar.

– Aprendi que pra ver o sol é preciso fechar os olhos e mirá-lo. Assim não se cega as vistas e se aproveita sua luz. Mas mesmo de olhos abertos eu consigo ver suas feições ensolaradas. Queira Deus, D. Consciência, que eu nunca esqueça sua voz, o sotaque, seu rosto e como suas expressões reagiam a mim. Queira Deus que eu nunca esqueça sua textura, perfume e principalmente… que eu nunca esqueça como a vida é quando ele encontra meu olhar, a ternura que habita em mim, afagando e queimando cada pensamento meu, tão intensamente, naquele momento tão sobrenatural. Queira Deus, que se um dia eu esquecer de tudo, eu lembre de nossa conversa e permita que o amor habite em mim mais uma vez.

“Dizem que a paixão vem com tudo, derrubando o que houver pela frente, tão intenso que não da pra medir e tão rápido que não da pra sentir, restando apenas saudade.”



Eu conheci a Aurora no ginásio.doc

•08/01/2010 • 1 Comentário

Eu conheci a Aurora no ginásio. Ela tinha um ousado Black Power ruivo no lugar dos cabelos. Brincadeira. Não era um Black Power. Mas era inaceitável pela sociedade de um modo geral de qualquer forma. Ela só tinha 13 anos e já tinha estilo próprio além de pouco se lixar pros olhares curiosos. Eu achava aquilo no mínimo admirável. Almejo esse desprendimento até hoje… No mais, ela era uma ruiva bem comum: sardas, olhos claros…  e…  acho que só. Mas tinha um rosto muito bonito (obviamente ofuscado pelo Black Power). Mas muito bonito. Eu sempre muito curiosa por entender as coisas mais incomuns, fiquei amiga dela rapidinho. Eu: a magrela de óculos e a Aurora: a ruivinha Black Power. Tinha mais gente no grupinho, mas acho que só a gente tinha características dignas de um “título pós nome”.

A aurora tinha uma personalidade digna de registro. Era divertido andar com ela. Ela era do tipo de pessoa que atravessa a rua sem olhar e fazia isso conscientemente. Ela andava de um jeito engraçado também. O tronco dela fazia um giro de quase 90 graus pra cada lado a cada vez que impulsionava uma perna. Era um andar meio displicente. Usava óculos muito sérios e ria pouco. Outro dia, ela descreveu uma roupa pra uma vendedora, perguntando se na loja tinha algo do tipo. A moça disse que ela não acharia aquilo em lugar nenhum. Ela (extremamente aborrecida) soltou um sonoro e desdenhoso: “Se não tiver eu invento.” Por aí já se imagina como ela se vestia.

Só vi a Aurora perder a segurança uma vez. A gente tava no ônibus indo pra aula de música. Não estávamos conversando muito. Num movimento repentino, ela se virou pra mim, apontou pra janela e sem emitir um som sequer, começou a gesticular loucamente coisas sem sentido algum. Notando meu espanto e minha eminente expressão sonora de “que merda é essa?” , ela entredentes me diz: “Finge que a gente ta fazendo conversa de surdo e mudo!”. Gargalhar foi inevitável. Ela muito séria, deu uma olhada de relance pra um banco do outro lado um pouco mais atrás e voltou o rosto pra mim com um sorriso forçado fingindo que estava achando graça também.

Na mesma hora notei o alvo do olhar. Um garoto de uns 20 anos. Ele tinha uma interrogação curiosa no olhar. E um olhar imensuravelmente impactante. Que olhar. O garoto era lindo! Meu momento “slow motion”, foi bruscamente interrompido com a queda repentina da resma de folhas que a Aurora carregava pra cima e pra baixo. P#%* q %$@iu…  (eu pensei). O menino bonitão se prontificou na hora a ajudar ela a juntar as coisas.  Só deu tempo dela me soltar um: “Não fala nada agora”.

Estranhei muito aquilo tudo. Foi muita informação em muito pouco tempo. Ajudei a juntar as coisas enquanto ouvia partes do diálogo. Eles pareciam se conhecer. Voltei pra minha cadeira e eles continuaram conversando alguma coisa. Logo em seguida ele fez sinal pra descer e ela voltou a sentar do meu lado. Pensei em finalmente perguntar o que era tudo aquilo, mas antes que minha boca abrisse, ela já me interrompeu com o mesmo comando (entredentes): “Não fala nada agora”.

Eu que tava crente que ela ia me explicar alguma coisa quando ele descesse, fiquei a ver navios enquanto ela fingia que não tinha acontecido nada! Soltei outra gargalhada e mandei ela parar com a palhaçada.

– De onde você conhece esse cara?

– Das aulas de piano. Ele é professor. Quer dizer… É uma espécie de monitor.

– E esse auê todo foi pra que?

– Que auê?

– Tá de sacanagem? Você se fingiu de surda e muda e depois falou com ele! E você conhecia ele! Você é maluca? Jogou sua resma toda no chão! Não entendi nada!

– A resma caiu numa curva. Me distraí. E eu não me fingi de nada. A surda aqui era você…

O máximo que consegui foi abrir a boca até a altura do umbigo… Depois soltei umas gargalhadas.

O cara do piano era na verdade um completo desconhecido. Um cara que ela só conhecia de vista e tinha acabado de travar o primeiro diálogo naquele ônibus. Mas isso eu só descobri depois de muita investigação. Depois daquilo fiquei observando. O cara nunca tinha chegado perto dela, mas depois do dia do ônibus eles começaram a se falar com alguma freqüência. Notei que ele tinha um olhar perdido pra ela. Ele sorria quando fitava o andar displicente dela. O mesmo sorriso que ele fazia quando ouvia as notas que ela produzia ao piano. O mesmo sorriso que eu a vi emitir tão frequentemente todas as vezes que ele surgia pra treinar com ela.

Era bonito ver os dois juntos. Um dia perguntei pra ela se ele já sabia que ela não fala nada de língua de sinais. Ela disse que já tinha aprendido quase tudo da linguagem e já tinha começado a ensinar a ele. Eles se apresentaram juntos num festival alguns meses depois. Ela cortou o cabelo e começou a usar umas fitas coloridas nele. Pode parecer pouco, mas fez uma diferença brusca (sem tirar a originalidade do cabelo crespo). Ele ganhou um prêmio com uma música que fez pra ela. Outro dia flagrei eles dois fingindo que eram surdos pra o cara da lanchonete.

O fim da história? Não tem. Poderia ser triste, ou feliz pra sempre. Importa? É só uma história, a vida de alguém… e tanto quanto na sua, é você que inventa.

“Tua flor me deu alguém pra amar”

•02/01/2010 • 3 Comentários

Em primeiro lugar, há tanta coisa que merece ser dita primeiro, que não sei por onde começar. Talvez pelas minhas impressões… As primeiras. Eu tive sim essa “estranha impressão” estampada no rosto ao ouvir Los Hermanos pela primeira vez, assim como Bruno Medina descreve em seu texto no qual conta como foi parar na banda. É um som estranho, mal definido, com letras confusas. De início você pensa: É o tal do “alternativo”…

E como ele mesmo diz, chego em um ponto em que não posso mais tentar entender a proposta deles e só me resta como opção sentir a música. Nenhuma vez, me vi tão envolvida por tantas músicas de uma banda só. Músicas podem ser boas, bonitas, bem feitas, com letras boas. Mas além de tudo isso, essa música me faz sentir. Sentir uma dor, um amor, um sofrimento, ou alegria que sequer são meus. Eu costumo escrever na ânsia de conseguir transmitir algo do que sinto de modo que outros percebam e eles fazem isso de uma forma indescritível com música. Que bom, que por todo esse tempo eles não tiveram “vergonha de fazer música com muito amor e sinceridade”. Uma vez que a expressão é sua, não se deve priorizar a opinião pública, e sim a própria.

Visitei esporadicamente o blog do Medina com algum preconceito inicial. Desconfio que blogs como o dele devem ter alguma exigência quanto a periodicidade e o autor deve escrever obrigatoriamente “x” artigo(s) em um determinado espaço de tempo. Isso pra mim é uma espécie de ofensa. Escrever não deve ser obrigação. Deve-se fazer isso quando a necessidade vier. Mas confesso minha ignorância, já que nunca procurei me informar sobre como isso funciona e julguei de forma leviana. Além disso, também não achava os textos tão interessantes a ponto de prender minha atenção até o fim. Não que eu me sentisse superior, só não achava ele um escritor de coração. Não, até ler seus contos sobre a banda. Põe coração nisso.

Botei o som pra tocar enquanto o lia e quase que num encontro sobrenatural, me vi lendo sobre as situações descritas e marcadas por determinada música no momento em que elas tocavam no meu fone. Põe coração nisso. Ainda não li tudo o que pretendo sobre eles pra entender a separação… descanso, ou seja lá o que for que eles intitulam como o fim da banda. O fato é que pelo que ouço dos fãs ferrenhos, isso é algo tão misterioso e não compreensível quanto os sentimentos inexplicáveis que nos povoam ao ouví-los. Me limito a não entender e sentir.

Ouvir cada música pela trocentésima vez é como ouvir pela primeira, redescobrindo-as. Sinto algo diferente cada vez que ponho pra repetir… Mesmo que não componham mais como Los Hermanos, o que fizeram até hoje, já passou algum recado. Queria eu conseguir passar meus recados também com tanto louvor. Por mais que continuem produzindo separadamente, nunca serão a mesma coisa de quando juntos, mas talvez já não tenham mais o que dizer juntos. Se tiverem, sei que o farão. Eles se satisfarão por poder expressar isso e os ouvintes por poder sentir.

Ah, inveja… Inveja da habilidade com os instrumentos e da oportunidade que tiveram de aprender a tocá-los. Inveja da oportunidade de ver os rostos expressivos de uma platéia que reage aos seus sons. Ainda não li tudo sobre a história de cada um deles (apesar de ansiar muito por isso nesse momento), mas o fato é que tiveram a chance de aprender a mostrar com os sons tudo o que minha escrita silenciosa é incapaz de transmitir. Sempre ansiei desde criança a capacidade de compor musica. Até hoje me limito a escrita e lamento minha falta de habilidade com poemas. Nesse campo dos meus projetos de vida… estaca zero ainda.

Sinto uma angústia quase insuportável por não poder compor como eles e ao mesmo tempo uma angústia extremamente necessária ao ouví-los. Uma tentativa de sanar um pouco dessa minha falha só ouvindo. Talvez não devesse ter ouvido em primeiro lugar. Mas como já disse em outro texto, prefiro não me privar de nada. Essa deve ser a angústia de quem quer falar num mundo de surdos, ou gesticular num mundo de cegos. Desejosa demais por me comunicar, é difícil aceitar que não consiga isso como eles. Mas a inveja é superada pela admiração.

Nesse momento, numa fraca tentativa de diminuir minha angustia, achei por bem compartilhar: Ai vai um pouco desse som pra que vocês também tenham uma “estranha  impressão” ou (aos que já conhecem) compartilhem dessa viciosa angústia sem dono.

Pensei em muitas das músicas que agora me embalam, mas ouvindo esta em especial, depois de tanto tempo desde que a ouvi pela primeira e também pela última vez, vejo que é ela que merece estar aqui. Foi ela que me despertou pras outras em primeiro lugar.


Além disso, diria pra que você experimentasse ” O velho e o moço”, ” A flor”, ” Pois é”, “Dois barcos” (essas duas tem no mínimo as introduções mais bonitas que já ouvi), ” Condicional”, “Primeiro andar”, “Sentimental”, “Morena” e por aí vai. Eu tenho tendência às musiquinhas mais tristes, mas tem as animadinhas também.

A parte de todos os meu lamentos, destaco o maior deles: o de não ter podido conhecê-los ao vivo num show quando estavam juntos e saber que agora, já não posso mais.

É um teclado maldito com essas notas que ferem. Esporadicamente acompanhado por esses sopros saxofônicos tão ingênuos, mesclados às cordas e bateria que dão ritmo a uma voz meio insana, barbuda que traduz o tão inexplicável amor. Como podem me comover em tão poucos minutos? Montar um sorriso em mim, ou criar uma amor por sei lá o que?

Pra ser sincera, não sei muito bem o que quis dizer até agora, só sei que é intenso demais.