Acordar pra si

E se você fosse embora da sua cidade, deixasse os amigos pra trás, perdesse o contato quase completo com todos e os reencontrasse 10 anos depois?

Isso aconteceu comigo.

Nós tinhamos não mais que 14 anos quando eu me fui. Tivemos alguns contatos superficiais ao longo dos anos. Nesse retorno, foi estranho olhar pra minha amiga de tanto tempo e não reconhecê-la. Admitir que já não sei quem ela é. Foram muitos anos. Como se a distância, o tempo e a falta de contato não fossem suficientes, some a isso tudo, o fato de termos passado da pueril e instável adolescência pra idade adulta com toda sua descarga de personalidade recém formada.
Era como olhar pra outra pessoa. O que nao deixou de ser verdade (até fisicamente as mudanças foram bruscas obviamente. Pra nós duas).

Mas lá estava eu. Fui parar inusitadamente na festa de bota-fora dela. Vai se mudar do nordeste, voltar com a família pra BH (sua cidade de origem, diga-se de passagem). Dei de cara com aqueles olhos claros, vivos e atentos de sempre. As mesmas expressões de 10 anos atras. Os cabelos… exatamente iguais ao da época: um encaracolado displiscente. Falava com aquele sotaque eternamente mixado entre o mineirês e o paraibano. Nós duas claramente não tão confortáveis com o simples fato de não nos conhecermos mais e também com o fato de nos conhecermos há tanto tempo. Cumprimentei a mãe que demorou pra associar a moça de agora à garotinha magrela de anos atras.  Além disso, conversei com a irmã, que me atualizou sobre os quês e porquês da mudança.

Em um dado momento, o palco, antes despercebido por mim, se tornou meu foco de atenção e surpresa ao vê-la subindo e abrindo o zíper de uma capa de instrumento. Guitarra em punhos, eu simplesmente a reconheci. Foi como vê -la com 1,50m mais uma vez. A banda se posicionou ao redor dela com toda aquela intimidade de quem compartilha um com o outro o que mais gosta de fazer. Os primeiros sons emitidos ainda em fase de testes revelaram de cara a tendência ao rock. Já as brincadeirinhas com a platéia revelaram o perfil tímido-espontâneo da menina.

Foi quando lembrei das primeiras notas que ela tão concentradamente emitia naquela época, naquele violão quase do tamanho dela. O cabelo preso, o anel que ela usa até hoje, a vaidade despojada que ela já exibia aos 11 anos. Calhou com o momento em que ela propria ironizou o vestido e o par de sapatos de salto que usava no momento. Teoricamente destoando por completo da faixa da guitarra atravessada no peito. Aos meus olhos, um look alternativo. Assim como todo o rumo que a personalidade dela tomou. Ela era completamente diferente da Iara que eu tinha conhecido, mas certamente exatamente a Iara que imaginei um dia, que ela fosse ser.

Vê-la se deixando levar pelos próprios acordes só me refrescou a memoria pra uma das melhores sensações que já saboreei: Me bastar. Imagino que todos deveriam ter um momento de introspecção fazendo algo que lhe complete e dê a sensação de plenitude tão libertadora (tocar guitarra, surfar, fazer crochê, pintar, trabalhar, brincar com o cachorro…). Nesse momento, não há saudades, nem lamentação. Não é preciso família, cônjuje ou amigos… Só você já é suficiente.

Me perdi nas escalas, letras e autores das músicas, me perdi em mim, até me achar e gostar do que achei.
Obrigada amiga.
Vai ser uma pena voltar aqui e não poder contar com sua presença. De qualquer forma, algo me diz que ainda vamos nos reencontrar. Mesmo que daqui há 10 anos… =)

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~ por maiahloren em 04/02/2011.

Uma resposta to “Acordar pra si”

  1. Aparentemente também estou travando um reencontro por aqui, com um velho e amigo amontoado de palavras.

    Nas lembranças e estranhamentos também faço coro, pois nas frases novas eu ainda julgo ser capaz identificar os velhas ideais, as mesmas alegrias e dissabores…

    A verdade é que é esse silêncio que não identifico, esses meses passados em branco por aqui…

    As palavras ainda estão aí, a insistência em não usá-las é que não reconheço…

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