“Energia da Nossa Vila Isabel”



No início as cadeiras vazias criavam a expectativa. Na mesa, os instrumentos, garrafas de cerveja, copos pela metade e uma estatueta de São Jorge no centro. Primeiro surgiu uma menina mulata de aproximados 10 anos de idade, vestindo um casaco rosa e um tamborim na mão. Os outros foram chegando aos poucos e já tomando posse de seus respectivos lugares e instrumentos.

Bem próximo do grupo, havia uma senhora de vestido roxo, cabelos soltos e álcool na mente se remexendo aos primeiros sinais das batidas musicais. Do outro lado um homem alto negro retinto desfilando com sua loira reformada cirurgicamente de meia idade. Na frente deles, uma senhora de calças azul piscina e óculos escuros (apesar do breu das 8 da noite). Mais pro fundo do boteco um senhor de calças brancas, camisa estampada e um colete cinza de lã, fazendo jus ao frio da noite, riscava o salão com seus passos desequilibrados de mestre sala.

Próximo da entrada, uma senhora de calças apertadas casaco de malha e boné sambava, admirável e discretamente num canto. Próximo dela outras senhoras se esbaldavam de sambar entre as mesas e cadeiras. Uma moça filmava e fotografava a apresentação animada do grupo e a alegria dos fregueses. A mulher de roxo gritou aos 4 ventos entre uma música e outra: “Isso aqui é Vila Isabeeel!!”  enquanto aproximava os quadris agitados pra perto do rapaz do pandeiro que imediatamente se benzeu com cara de espanto.

O grupo seguia brilhante emanando uma alegria que foi representada fielmente pelo percussionista de tranças no cabelo. Seus dentes compridos e brancos cintilavam o sorriso de orelha a orelha enquanto ele levantava o pó do chão com uma batucada compassadamente enérgica. Entre um ritmo e outro ele ensinava a menina do casaco rosa como acompanhar a batida da vez no tamborim. Os integrantes se revezavam entre sorrisos, suor, cerveja e instrumentos.

Os fregueses cativos se cumprimentavam a cada novo encontro. Os pais sacudiam as crianças. Um garçom insinuava um passinho ao passar com a bandeja. Os outros acompanhavam o ritmo do samba dando batidinhas no pescoço das garrafas. Já mais pro fim do que pro início, surgiu uma figura marcante. Ele usava um casaco antigo, calças largas e um tênis velho, era alto, negro, com um aspecto maltratado pela vida, barba desgrenhada e uma touca preta. Tinha anéis e pulseiras prateadas robustas. De um momento pro outro, pra minha surpresa, o grupo lhe oferece o microfone e pede três músicas.

Tirando olhares espantados de alguns do boteco, ele puxa “Amor amigo” e surpreende. Terminada sua participação, o grupo lança um samba entoando orixás, pondo fogo na “platéia” já agitada, que se aproxima em torno da mesa, agitando o corpo, sentindo a batida de candomblé vibrar dentro de si. Instante tão marcante quanto o momento que tocaram “Feitiço da Vila” sem que qualquer um deles entoasse a letra. Foi quase como sentir Noel “vagando na noite e vivendo na terra” pra cantar sua canção mais uma vez.

Interessante descobrir a proposta desse estabelecimento que atende como padaria, restaurante e veja só, boteco no fim do dia (com direito a samba ao vivo aos domingos). Eu que me perguntava porque essa região tão conhecida pela boemia, fica pra trás quando o assunto são as animadas e jovens noitadas, agora sinto minha dúvida sanada com um trecho da canção de Noel: “São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila… Isabel dá samba.”


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~ por maiahloren em 16/08/2010.

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