Eu conheci a Aurora no ginásio.doc

Eu conheci a Aurora no ginásio. Ela tinha um ousado Black Power ruivo no lugar dos cabelos. Brincadeira. Não era um Black Power. Mas era inaceitável pela sociedade de um modo geral de qualquer forma. Ela só tinha 13 anos e já tinha estilo próprio além de pouco se lixar pros olhares curiosos. Eu achava aquilo no mínimo admirável. Almejo esse desprendimento até hoje… No mais, ela era uma ruiva bem comum: sardas, olhos claros…  e…  acho que só. Mas tinha um rosto muito bonito (obviamente ofuscado pelo Black Power). Mas muito bonito. Eu sempre muito curiosa por entender as coisas mais incomuns, fiquei amiga dela rapidinho. Eu: a magrela de óculos e a Aurora: a ruivinha Black Power. Tinha mais gente no grupinho, mas acho que só a gente tinha características dignas de um “título pós nome”.

A aurora tinha uma personalidade digna de registro. Era divertido andar com ela. Ela era do tipo de pessoa que atravessa a rua sem olhar e fazia isso conscientemente. Ela andava de um jeito engraçado também. O tronco dela fazia um giro de quase 90 graus pra cada lado a cada vez que impulsionava uma perna. Era um andar meio displicente. Usava óculos muito sérios e ria pouco. Outro dia, ela descreveu uma roupa pra uma vendedora, perguntando se na loja tinha algo do tipo. A moça disse que ela não acharia aquilo em lugar nenhum. Ela (extremamente aborrecida) soltou um sonoro e desdenhoso: “Se não tiver eu invento.” Por aí já se imagina como ela se vestia.

Só vi a Aurora perder a segurança uma vez. A gente tava no ônibus indo pra aula de música. Não estávamos conversando muito. Num movimento repentino, ela se virou pra mim, apontou pra janela e sem emitir um som sequer, começou a gesticular loucamente coisas sem sentido algum. Notando meu espanto e minha eminente expressão sonora de “que merda é essa?” , ela entredentes me diz: “Finge que a gente ta fazendo conversa de surdo e mudo!”. Gargalhar foi inevitável. Ela muito séria, deu uma olhada de relance pra um banco do outro lado um pouco mais atrás e voltou o rosto pra mim com um sorriso forçado fingindo que estava achando graça também.

Na mesma hora notei o alvo do olhar. Um garoto de uns 20 anos. Ele tinha uma interrogação curiosa no olhar. E um olhar imensuravelmente impactante. Que olhar. O garoto era lindo! Meu momento “slow motion”, foi bruscamente interrompido com a queda repentina da resma de folhas que a Aurora carregava pra cima e pra baixo. P#%* q %$@iu…  (eu pensei). O menino bonitão se prontificou na hora a ajudar ela a juntar as coisas.  Só deu tempo dela me soltar um: “Não fala nada agora”.

Estranhei muito aquilo tudo. Foi muita informação em muito pouco tempo. Ajudei a juntar as coisas enquanto ouvia partes do diálogo. Eles pareciam se conhecer. Voltei pra minha cadeira e eles continuaram conversando alguma coisa. Logo em seguida ele fez sinal pra descer e ela voltou a sentar do meu lado. Pensei em finalmente perguntar o que era tudo aquilo, mas antes que minha boca abrisse, ela já me interrompeu com o mesmo comando (entredentes): “Não fala nada agora”.

Eu que tava crente que ela ia me explicar alguma coisa quando ele descesse, fiquei a ver navios enquanto ela fingia que não tinha acontecido nada! Soltei outra gargalhada e mandei ela parar com a palhaçada.

– De onde você conhece esse cara?

– Das aulas de piano. Ele é professor. Quer dizer… É uma espécie de monitor.

– E esse auê todo foi pra que?

– Que auê?

– Tá de sacanagem? Você se fingiu de surda e muda e depois falou com ele! E você conhecia ele! Você é maluca? Jogou sua resma toda no chão! Não entendi nada!

– A resma caiu numa curva. Me distraí. E eu não me fingi de nada. A surda aqui era você…

O máximo que consegui foi abrir a boca até a altura do umbigo… Depois soltei umas gargalhadas.

O cara do piano era na verdade um completo desconhecido. Um cara que ela só conhecia de vista e tinha acabado de travar o primeiro diálogo naquele ônibus. Mas isso eu só descobri depois de muita investigação. Depois daquilo fiquei observando. O cara nunca tinha chegado perto dela, mas depois do dia do ônibus eles começaram a se falar com alguma freqüência. Notei que ele tinha um olhar perdido pra ela. Ele sorria quando fitava o andar displicente dela. O mesmo sorriso que ele fazia quando ouvia as notas que ela produzia ao piano. O mesmo sorriso que eu a vi emitir tão frequentemente todas as vezes que ele surgia pra treinar com ela.

Era bonito ver os dois juntos. Um dia perguntei pra ela se ele já sabia que ela não fala nada de língua de sinais. Ela disse que já tinha aprendido quase tudo da linguagem e já tinha começado a ensinar a ele. Eles se apresentaram juntos num festival alguns meses depois. Ela cortou o cabelo e começou a usar umas fitas coloridas nele. Pode parecer pouco, mas fez uma diferença brusca (sem tirar a originalidade do cabelo crespo). Ele ganhou um prêmio com uma música que fez pra ela. Outro dia flagrei eles dois fingindo que eram surdos pra o cara da lanchonete.

O fim da história? Não tem. Poderia ser triste, ou feliz pra sempre. Importa? É só uma história, a vida de alguém… e tanto quanto na sua, é você que inventa.

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~ por maiahloren em 08/01/2010.

Uma resposta to “Eu conheci a Aurora no ginásio.doc”

  1. Conto legal… =)

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